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domingo, 15 de abril de 2012

BACALHAU NAS NATAS (adaptado)

Comprei uma bandejinha de lascas de bacalhau salgado. E, mexendo na geladeira para escolhe o menu de domingo, me deparei com ela e, foi então que me dei conta de que nunquinha tinha feito bacalhau. E lá fui eu à caça de uma receita. Com ajuda das minhas amigas Thays Barca e Tatiana Ferraz, primeiro lembrei das pataniscas que comi em Portugal. É um empanado de lascas de bacalhau com ovo. Bem gostosinho. Mas aí lembrei que queria fazer um bolo e os ovos não seriam suficientes. Minha prima Marcella sugeriu que eu começasse com aquela receita clássica com batatas e grão de bico. Não tinha nem um nem outro à mão (já falei para vocês que gosto de cozinhar com o que tem em casa, né?). Mas era esse gosto, doce e massudo que eu estava procurando. Aí lembrei dos infinitos bacalhau nas natas que comi em Portugal. E comecei a adaptação:

1. Deixei o bacalhau de molho para dessalgar.
2. Troquei a água mil vezes ao logo do dia e, à noite, fui desfiando as lascas até ficarem bem miúdas.
3. Piquei uma cebola pequena em pedacinhos pequeninos e refoguei no azeite. Quando as cebolas murcharam e ficaram transparentes, acrescentei o bacalhau. Coloquei um pouquinho de pimenta do reino branca, um pouquinho de páprica doce e um punhado de salsa desidratada. E fiquei ali cozinhando.
4. Enquanto isso, coloquei seis mandioquinhas para cozinhar.
5. Quando estavam cozidas, cortei as mandioquinhas em rodelas e forrei o fundo de uma assadeira. A essa altura, o bacalhau já estava pronto e coloquei por cima das mandioquinhas, formando uma segunda camada.
6. A terceira camada foi feita assim: dissolvi duas colheres de sopa de maisena numa caneca de leite e levei para engrossar na mesma panela em que cozinhei o bacalhau. Coloquei uma colher de sopa de manteiga e deixei encorpar. Quando estava com consistência de molho branco, juntei duas colheres bem cheias de requeijão cremoso e uma caixinha de creme de leite (às favas com a intolerância à lactose e com o colesterol certo?). E mexi para misturar bem e jamais embolar.
7. Coloquei por cima do bacalhau e forno. Foram uns 40min em fogo alto para gratinar.

Ficou muito lindo e delicioso. Eu, minha mãe e minha filha detonamos meia travessa. De tal forma que só deu para tirar foto do que sobrou....

Incredable, é a melhor tradução

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A TRÍADE (parte 02)

Não sei quem veio primeiro, meu pai ou a Flip a me apresentar os novos-africanos da literatura. Pepetela, Agualusa (que ainda não li, mas conheci na Livraria da Vila) e Mia Couto. Entraram em minha vida fazendo estrago, mexendo com a maneira como eu falava e até na ordenação dos pensamentos. Coisa parecida, só com Guimarães Rosa em tempos de vestibular. Para falar a língua da vida real, tinha que pensar. Se não, saía meio Guimarães. Coisa incrível. Mas fui lendo as maluquices e os mundos imaginários dos africanos e conhecendo aquilo tão bem... entre um e outros, li Ryszard Kapuściński, com seu Ébano e outros escritos, livros-reportagem que me contavam mais e mais daquela África tão distante, mas tão conhecida minha. Sobre o único objeto que a maioria dos africanos têm (uma panela, um balde, uma garrafa) e como se agarram àquilo, com toda a força, a ponto de se deixar morrer abraçado ao camelo no deserto quando o animal se vai primeiro. Falava-me da única refeição do dia e dos olhos da fome. Falava da corrupção e da falta de um projeto de nação. De como foi cruel a colonização do século 19 e de como isso deixa marcas profundas nos países, claro, mas nas pessoas. Essas sim, marcadas por crenças difíceis de arrancar. De um lado, os ficcionistas abrindo Jesusalém, um mundo imaginário, quase onírico. Do outro, o repórter rasgando as mazelas. Eu sempre me soube um tanto africana, por origem e por respeito, talvez até mais por respeito. Fui aos terreiros de Candomblé levada por meus pais, vi as fotos de Vergè e as artes de Caribé por toda Salvador. E cresci em Salvador vendo as meninas trançarem os cabelos e andarem com latas na cabeça. E não faz tanto tempo assim.

E enquanto eu pensava na vida separando as espinhas da sardinha metida no cuscuz, finalmente entendi que, brasileira que sou, vivo numa tríade, cada vértice num continente. Ponta aqui, ponta na África, ponta em Portugal. Cada ponto unido por um fio, que talvez seja a língua comum, talvez a história que testemunhamos e construímos todos juntos. Tenho, portanto, três origens, três pertenças. Posso abraçar num golpe só o que fui e o que sou. E que só fazem sentido, se juntas. Reconheci que ir à Portugal será como reverenciar uma de minhas minhas pátrias, tomar posse de algo que sempre foi meu, mas sobre o qual nunca pude estender meus olhares. A minha África sim, essa já me habita desde pequena. Faltava meu Portugal. Sinto como aquelas pessoas que ficam décadas sem voltar ao lugar de origem e resolve voltar. É preciso passar na casa de cada um dos parentes ainda vivos, que são o elo para o passado e a quem se honra na projeção do futuro. Faltava honrar esse Portugal que há em mim, minha terra, minha origem e pertencimento. Quero ouvir o português que vem da Europa, salgado pelo mar, amargo pelas agruras de não se ser mais um império, mas doce e elegante por tanto tempo curtindo. E conhecer - como disse minha amiga Lu Porto - esse velho amigo, com quem me correspondo há tanto tempo sem nunca ter abraçado.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A TRÍADE - (parte 01)

Sofro de uma estranha atração por Portugal. Não tenho família lá, nem história que me remeta às terras de além-mar. Ainda assim, sempre soube que minha porta de entrada para a Europa seria Portugal. Algo como o meu lugar no Velho mundo. E eis que me apareceu a oportunidade de cruzar o Atlântico e juntar as duas pontas. Desde que essa possibilidade se anunciou, comecei a catar os cacos e a tentar entender essa força que me empurra para lá. Enquanto o artigo que vou apresentar no congresso em Braga, norte do país, ia sendo traduzido para o inglês, eu ia passeando pelas irregulares ruas de Paraty, no Rio de Janeiro, e me dando conta que, um dia, el-rey passou por ali, ou perto dali, ou alimentado pelo ouro que - esse sim - passou por ali. A arquitetura colonial da cidadezinha fluminense é a herança viva de que quando Portugal se estendeu para cá, um dos tentáculos quedou ali, fazendo da igreja cartão postal - Santa Rita, é isso? - a lembrança do lado de lá no lado de cá. Foi lá em Paraty também, durante a Flip que nos cercava, que tive notícia e vivenciei o fenômeno valter hugo mãe, sobre o qual já escrevi no O Blog do Chico. Parecia brincadeira, mas Portugal resolveu que ia me cercar por todos os lados.

O fato é que tomei gosto pela brincadeira de caçar as peças que me unem àquele país. Puxei da memória e lembrei de um professor do cursinho que ensinava literatura Portuguesa e, um pouco interpretando no tablado, contava como era o povo português e daí os porquês de sua literatura. Estive ao lado de Sebastião, estive na Tabacaria, nas serras e nas cidades e voei um tanto na passarola nessas aulas. Lembrei do documentário José & Pilar. Tão lindo, tão rico, tão engraçado, tão delicado e arrasador. Fui entendendo que os portugueses têm um riso contido entre as queixas, um fadismo cômico, um rir-se sem rir das coisas realmente mais sem sentido da vida. Saramago fazia assim. valter hugo faz assim. Como cabe tamanho brotamento de risadas numas pessoas com gestos, falas e postura tão suaves? Instigante, né? Acho os portugueses e as portuguesas finos, elegantes, até na maneira de e convidar a rir. Ou a chorar.


Mas foi durante o almoço de ontem, enquanto separarava as espinhas de uma sardinha metida num cuscuz paulista (santa ironia!) que entendi um algo a mais. Isso sim eu considero relevante. E foi a literatura, claro!, que me fez cruzar a ponte. As pontes. Fechar a tríade. Vou refletir um pouco sobre o caminho para contar essa história e assim que essa forma tiver corpo, posto aqui.